Vamos falar um pouco sobre o baterista Mike Portnoy, de quando estava na banda Dream Theater. Seria muito fácil analisar a obra “baterística” desse batera: seu kit monstruoso, sua técnica peculiar e sua atitude no palco são notórias. Mas algo que sempre me incomodou é que a maioria das pessoas apenas apontam seus ouvidos para sua faceta “progressiva” e “metaleira”.

Baterista Mike Portnoy

Todo bom admirador do trabalho do Dream Theater tem na ponta da língua inúmeras partes de bateria que poderiam ser apontadas como históricas:

A introdução e a levada inicial:
A virada inicial:
A construção:
A bateria espetacular da épica:

São músicas terríveis para tocar na íntegra, tanto pela escolha das peças utilizadas (pois, nem todo mundo pode ter uma bateria daquele tamanho…) e pela complexidade das levadas e viradas. Pelo menos pra mim, sua abordagem sempre foi voltada para a “canção” (se é que podemos aplicar esse conceito nas músicas mais complexas do Dream Theater) e para o contato com o público.

Nesse pequeno artigo, queria compartilhar com vocês uma reflexão sobre uma pequena parte de uma das músicas menos citadas do Dream Theater, no que diz respeito à complexidade “baterística”, mas que me marcou desde a primeira vez que eu ouvi.

Música Scarred do álbum Awake

Essa música tem tudo o que uma composição progressiva poderia ter: climas intimistas, letras filosóficas, solos bem estruturados e complexos, peso e técnica na medida certa. Mas há algo que sempre me intrigou nessa música. Não! Não vou analisar as levadas que o Mike Portnoy fez durante os solos de guitarra de John Petrucci e do tecladista Kevin Moore. O que sempre me deixava com um misto de “Que coisa legal”, misturado com “o que isso tem a ver com o resto da musica?” e com um “Que raio de levada de bateria é essa?!” era justamente a seção final da música.

Do nada, sem pedir licença, todo o clima da composição era quebrado e uma melodia totalmente sem contexto com a música nos é apresentada pelo tecladista Kevin Moore. Posso estar enganado, mas, o trecho em questão, só poderia ter saído da cabeça dele. Um teclado com um timbre bem “Moore” vai apresentando os acentos da que serão utilizados por Petrucci e o baixista John Myung.

Partitura de bateria

Se pensarmos em “acentos”, baixo e guitarra estão fazendo basicamente isso aqui:

Partitura de bateria

Após apresentar esse tema, Moore executa essa melodia:

Partitura de bateria

Desde o início do século XX, a repetição é um artifício utilizado com resultados impressionantes por compositores como: Ravel e Shostakovich, e usando esse conceito, Moore repete o tema insistentemente, fugindo das inúmeras possibilidades “virtuosísticas”, ou seja, ao invés de mandar montanhas de notas, ele se prende ao mesmo tema, deixando as mudanças de clima e dinâmica com seus companheiros de banda.

Agora, e o Mike Portnoy?

Portnoy propõe uma solução absolutamente simples, mas extremamente inteligente e musical. Ele constrói uma levada que não perturba o clima da seção, mas ao mesmo tempo, faz comentários, ajudando a construir outro “tema”, somente com a cúpula do ride, que acaba funcionando como uma espécie de “clave”. O tema que ele faz com a cúpula é o seguinte:

Partitura de bateria

Só que, ao mesmo tempo em que ele faz essa “melodia”, ele mantém os acentos na mesma divisão dos outros instrumentos. A levada completa fica assim:

Partitura de bateria

No próximo ciclo, como que querendo deixar a seção “respirar”, Mike Portnoy desconstrói a levada a sua forma mais simples, acentuando e mantendo a condução em semicolcheias, como no trecho seguinte:

Partitura de bateria

Prosseguindo na “desconstrução”, no ciclo seguinte, ele sai das semicolcheias e conduz no hi-hat aberto em colcheias:

Partitura de bateria

Esse exemplo é uma amostra clara de como Mike Portnoy consegue, com uma levada enxuta, fazer o seu trabalho de forma exemplar, pois, ao invés de sujar o trecho com inúmeras frases e outros artifícios, ele elabora um groove limpo, complexo e musical, além de conduzir a banda (e a música) para um clímax perfeito, enquanto a música vai terminando em fade out.

Essa análise pode ajudar a entender como se ajustar a determinados arranjos e nos faz pensar na questão do Less is more (do inglês: Menos é Mais) que o título fala. Preste atenção até nos mínimos detalhes, pois, conforme vamos avançando no estudo, nossa tendência é abandonar pequenos detalhes, em prol de grandes estruturas, mas, em alguns momentos, são os pequenos tijolos que formam uma estrutura excelente e sólida.

Independente de sua concepção musical, ou do estilo que você prefere tocar e/ou ouvir, analisar e respeitar esses verdadeiros mestres é o mínimo que podemos fazer se quisermos abrir nossos horizontes.

Por: Tiago de Souza

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Quero dedicar esse artigo aos meus amigos: André Magoo por me apresentar o Dream Theater e ao Bruno Guimarães, Izaac Alves, Rafael “Tempus” e Sergio Amorim, que passaram horas incontáveis comigo ouvindo essas músicas.

Baterista Tiago de Souza

Tiago de Souza dá aulas de:
Técnica, Leitura, Percepção, Ritmos brasileiros, Pedal duplo, improvisação, entre outros.

Mais informações:
tiagodesouzamusico@gmail.com | (21) 99689-6931 | Facebook de Tiago de Souza

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Tiago de Souza
Vencedor do Batuka! 2011 e 2º lugar no Mapex - Drummers of Tomorrow 2012, o carioca Tiago de Souza começou a tocar bateria em 2002 e profissionalizou-se em 2007. Cursou Teoria Musical e hoje acompanha artistas, bandas, músicos, e dá aulas particulares.

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