O mundo da música sempre esteve cercado por intensas disputas envolvendo dois conceitos. Embora nem sempre os músicos tenham consciência deles, eles estão presentes em qualquer performance, em diversos níveis e circunstâncias. Podemos encará-los pensando na relação entre duas palavras muito simples, mas que carregam conceitos complexos e nem sempre bem definidos. Tensão e Relaxamento. Essas duas palavras norteiam muito do que foi escrito, analisado, ouvido e sentido no nosso mundo. Mas… de onde eles surgiram? O que significam? Que utilidade eles tem para meu estudo de (cof, cof) 5 horas todos os dias?

Baterista de Whiplash na bateria

Temos a impressão em música que certas melodias nos tranquilizam, enquanto outras nos angustiam. A mesma melodia tocada por um violoncelo pode nos acalmar, mas se tocada por uma guitarra elétrica pode nos fazer querer bater em alguém. Todas essas sensações têm a ver com timbre, dinâmica, interpretação e contexto. Mas a questão é que elas envolvem o que chamamos de expectativa, uma necessidade de que tudo termine bem, independente da maneira como isso ocorra. Quando essa sensação específica de quietude (não estou falando de apatia, nem de inércia) não se completa, a sensação que temos é que algo nos falta.

Em harmonia funcional quando uma determinada sequência de acordes termina sem nos levar até a tônica, o termo Deceptivo exprime bem o que acontece. Ou seja, estamos falando de movimento. Quer saber o que isso significa? Se você não souber tocar teclado ou violão, peça para um amigo que toque um desses instrumentos para tocar essa simples sequência de acordes, cada um com quatro tempos num compasso quaternário: C seguido de um F, depois um G e depois novamente um C. Agora, peça para que ele toque C, seguido de um F, depois um G e um G5aum. Percebeu a diferença? Não parece que falta alguma coisa? Exato… Falta o Dó maior no final. Sem o , temos uma espécie de tensão. Com o no final temos relaxamento.

Quando falamos desses conceitos, nos referimos não apenas de movimento, mas de sensação e é justamente o equilíbrio entre as sensações de expectativa e conclusão que fazem a música ser tão dinâmica. Essa sensação pode ser rastreada não apenas nos primórdios da capacidade reflexiva inerente aos seres humanos, mas na própria natureza. O ir e vir das ondas do mar, o nosso andar, a nossa respiração, o sexo, e até mesmo as fases da nossa vida são organizadas por esses conceitos. Tensão e relaxamento. Expectativa e Saciamento. O ir e vir das ondas batendo na praia. O esticar e o afrouxar das cordas de um violão, a técnica Moeller…

Pois bem. E o que isso tem a ver com o filme Whiplash?

Whiplash - tocando bateria - aluno e professor

O filme mostra exatamente isso, em outras palavras. O protagonista quer ser o melhor baterista que ele puder ser, ele quer marcar o mundo, quer escrever seu nome na história e pra isso, passa por cima de sua família, de seus desejos, da possibilidade de encontrar o amor, e ignora sua constituição física e mental para alcançar esse sonho. Li muita gente na internet aplaudindo o filme e dizendo que esse é um exemplo a ser seguido, ouvi muitas indicações de que é assim que um músico tem que ser.
Será?

Lembro de uma entrevista do Terry Bozzio em que ele se perguntava: “E se eu tivesse a capacidade do Virgil Donati? O que eu faria?” e automaticamente ele completa: “Já que eu não tenho, procuro outros caminhos, busco novas possibilidades”. No decorrer do filme, aos poucos as motivações do protagonista vão sendo desveladas e a sua busca por melhorar cada vez mais no instrumento surge como um soco no nosso estômago. Essa jornada particular nos mostra como nós somos relaxados, no pior sentido que essa palavra tem. Quantas vezes eu recebi conselhos dos meus professores e nunca segui? Quantas vezes eu saia das aulas colérico por não ter recebido um elogio? Quantas vezes eu me permitia dormir até mais tarde ao invés de estudar? Quantas vezes a culpa de ter dado tudo errado era minha e eu fingia não perceber isso? Por tudo isso eu constantemente me depreciava, me ressentia, queria ser como quem estava em posições melhores do que a minha, queria tocar como hoje a dez anos atrás, queria estar gravando enquanto estava na varanda com minha namorada. Eu queria estar. Eu queria ter.

Eu estava tensionado.

Tive (e tenho) professores que apenas com o currículo me mostravam o baterista medíocre que eu sou. Todas essas situações (que não me envergonham nem um pouco) me motivaram a crescer, a estudar, a passar horas, dias, semanas, anos envolvido com a minha arte. E hoje, entendo como o tempo pode remediar essas lacunas físicas e mentais, desde que seja direcionado da maneira correta. Sei que não sou o Dave Weckl, nem o Ari Hoenig, muito menos o Aaron Spears. Sei que nunca terei as mãos mais rápidas do oeste, nem vou tocar aquele ostinato que só o Ramon Montagner consegue tocar, não tenho swing de negão e tô fora das panelonas, mas quer saber? Sinto-me bem com o que serei, mas isso não quer dizer que estou satisfeito com o que sou hoje. Quero mais e sempre vou buscar mais.

O mesmo aconteceu com o protagonista de Whiplash, mas como o filme cobre um período de tempo bem menor, o golpe no protagonista foi mais traumático. Ele passou por tudo isso e me parece que não entendeu a lição. As cenas em que ele aparece estudando um suposto drive de Jazz (e muito errado, por sinal) mostram como uma mente obtusa pode se bloquear. Ele forçava seus próprios limites, buscando caminhar a velocidade da luz, para pular no tempo e alcançar o seu eu futuro, pois estava claro (até depois do filme) que ele nunca conseguirá alcançar AQUELE objetivo, o de conduzir seu ride num andamento supersônico.

Ele estava tensionado.

Lembro-me das aulas que tive e como a lição primal era uma via em que quatro caminhos se entrelaçavam: a reflexão que aponta para o objetivo, o conhecimento da técnica, a prática intensiva aliada a intermitente busca por relaxamento levariam o estudante a alcançar seus objetivos com relação ao domínio de certas seções do instrumento. E é ai que o personagem do filme vacila feio. No decorrer do longa metragem eu perdi de vista a VERDADEIRA motivação do personagem: o que ele queria ser? Um bom baterista? Tocar naquela orquestra? Entrar pra banda do Wynton Marsalis? Será que ele realmente sabia o que queria?

Whiplash - Baterista com partitura

Outro fato é que nós brasileiros, devido a essa sujeira que impera na conduta de nossos líderes, temos uma gigantesca necessidade de referências, por isso a figura daquele professor se agiganta perante nossos olhos. O professor é o que menos importa nessa história (apesar de ser de grande importância no enredo do filme), pois como ele mesmo disse ao se referir a Charlie Parker, saxofonista de Jazz que tinha o apelido de BIRD, “um gênio nunca iria desistir diante de um desafio”. Mas as pessoas parecem não entender que um gênio também não desistiria diante da ausência de desafios.

Um teólogo certa vez disse que não precisamos ter medo do inferno: nós mesmos criamos nossos próprios tormentos aqui mesmo na terra. E inferno é o que o baterista do Wiplash estava construindo pra si. O professor por outro lado estava no seu próprio céu, pois estava perfeitamente satisfeito com tudo o que acontecia.

Que ironia, não é?

Pois bem. Foucault, um dos grandes pensadores do século XX escreveu que uma ideia por si só não se sustenta, ela precisa de alguém de peso que a legitime. Antes que você pense que eu sou um chato e que estou no grupo dos que reclamam de tudo (uma tônica nos tempos atuais em que todo mundo diz o que quer no Facebook), leia o que Billy Cobhan fala sobre o filme: “A coisa é muito mais profunda do que aquilo ali. Logo que comecei a ver o filme eu o deixei de lado. Talvez muita gente pense que a vida de um músico é assim. EU NÃO PENSO”. Apesar de não parecer, eu gostei muito do filme. Achei interessante abordar o universo musical pela figura de um baterista, gostei da trilha sonora, adorei as interpretações dramáticas do aluno e do professor, mas…

O problema é que no mesmo dia que eu vi WIPLASH eu assisti um filme chamado BIRDMAN.

O filme conta a história de um ator que, assim como o baterista de Wiplash, deseja fazer algo significativo, algo que escreva seu nome na história. Para isso, produz e atua numa peça na Broadway, determinado a apagar seu passado e ser algo inesquecível. O filme é incrível, a maneira como o diretor encadeia as sequências, a fotografia é estupenda e o tormento dos personagens no decorrer da trama é ao mesmo tempo divertido e angustiante. Mas na abertura do filme, algo incrível aconteceu. As letras que mostram o título do filme e o nome dos participantes da equipe de atores e produção começaram a aparecer como se fossem tecladas numa máquina de escrever. Mas ao invés de ouvirmos o barulho das teclas, ouvíamos alguém reproduzindo a dinâmica das teclas da máquina numa bateria… Ouvíamos música ambiente feita por um músico tocando BATERIA.

Para minha surpresa, 90% da trilha sonora do filme foi tocada apenas por um baterista e mais nada.

Eu entrei em choque.

O baterista em questão, apenas com tambores e pratos imprimia todo o tipo de sensações no telespectador. Seguindo o desenrolar das cenas uma verdadeira música programática se erigia perante nossos olhos: Angústia, desespero, alegria, descontração, surpresa, tensão, relaxamento, euforia… A bateria fazia tudo isso, sem precisar de cordas, vozes, teclados melosos, guitarras estridentes… Ela não estava afinada em intervalos precisos, não era D no surdo, nem F# no tom 1, era apenas uma bateria tocando de forma decidida, rigorosa, assustadoramente musical. E tudo sendo executado de forma complexamente simples, com uma autoridade que me deixou estupefato. Tudo fazia sentido pra mim! Conduções de ride cheias de figuras sincopadas, hi-hats que apareciam em lugares inesperados, mas ao mesmo tempo, escovadas cheias de som, suspensões, polimetrias, aquele som de ride cristalino, aquela caixa macia e que felling aquele músico desconhecido tinha! Que discurso! Que poder sobre as vibrações do metal e da madeira… Que baita músico! E que música saia pelas gigantescas caixas de som do cinema.

Ao mesmo tempo que parecia Stravinsky, parecia Debussy, parecia Mahler… camadas de som que vibravam em ondas preciosas, mas ao mesmo tempo unificadas pela clareza do discurso do músico que usava a bateria como um cavaleiro que comanda seu cavalo de batalha. Eu não queria saber se ele sofreu pra dominar aquele instrumento, eu não queria saber se ele tocava rápido, eu não queria saber o que eu precisava estudar pra tocar daquele jeito, eu só queria ouvir mais. E pra isso eu precisava saber quem era aquele cara que me dava aquele deleite. Eu precisava saber o nome daquele músico, não daquele baterista. Eu precisava saber quem tinha me dado a chave para algo que eu procuro a tempos: não apenas participar da música, mas sim FAZER música com meu instrumento. Sem soar piegas, eu desejo usar complexidade do meu instrumento a serviço do belo em música. Mesmo que o mais belo a fazer seja NÃO TOCAR ou TOCAR TUDO O QUE EU QUISER.

O filme terminou, as pessoas se levantaram. Eu fiquei até o fim.
As letras apareceram. A bateria continuava a tocar.
O nome do músico?
Antonio Sanchez (entre os 7 melhores bateristas de Jazz atualmente).

Antonio Sanchez tocando bateria

Ah é! Eu preciso explicar o título desse texto.

A muito tempo atrás eu li uma entrevista do Manu Katché em que ele dizia que usava splashes porque eram pratos pequeno e podiam ser utilizados repetidamente sem perturbar a música. Aquilo nunca mais saiu da minha cabeça. Antes de perturbar a si mesmo, como o baterista do Wiplash, procure não perturbar a música que há em você. Isso não significa que você tem que tocar pouco. Isso significa que você tem que tocar música, tocar os outros e ser tocado também. Pra mim, a melhor cena de Wiplash é o final, quando aluno e professor invertem seus papéis num verdadeiro carnaval, o mestre agora é aprendiz e o aprendiz agora comanda, e aquele olhar de cumplicidade entre os dois, aquele ataque que é pensado ao mesmo tempo pelas quatro mãos, aquele sorriso de satisfação… Pra mim, essa é a lição que o filme passa. Não adianta ser Charlie Parker se você não consegue tocar as pessoas. Por isso, ouça Bird e assista Birdman.

Ambos os pássaros preferem o Splash do que o Wiplash.

Se você está curioso para assistir aos filmes, seguem os trailers abaixo.

Birdman

Whiplash

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Tiago de Souza
Vencedor do Batuka! 2011 e 2º lugar no Mapex - Drummers of Tomorrow 2012, o carioca Tiago de Souza começou a tocar bateria em 2002 e profissionalizou-se em 2007. Cursou Teoria Musical e hoje acompanha artistas, bandas, músicos, e dá aulas particulares.

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