Conhecido por ser um grande “jazzista”, o baterista Julio Bittencourt, formado pela Universidade Livre de Música Tom Jobim, nos concedeu uma entrevista exclusiva, falando sobre suas influências musicais, seus projetos e outros assuntos.

Baterista Julio Bittencourt
Fonte da imagem: Facebook de Julio Bittencourt

Veja também:
+ Lançamento do CD Deslimites do baterista Julio Bittencourt

Som Batera: Julio Bittencourt, você é um músico que já tem uma vasta carreira, tocando há vários anos e realizando vários trabalhos. Sendo baterista, você trilhou caminhos por vezes espinhosos para chegar onde você chegou. Conte-nos um pouco de como foi o começo de sua carreira como baterista. Quando foi o seu primeiro contato com a bateria? Qual foi a sua primeira bateria? Quem foi seu primeiro professor?

Julio Bittencourt: Alguns bateristas já iniciam batucando em panelas, etc. Eu nunca tinha visto uma bateria de perto, até os 17 anos de idade. Minha iniciação musical foi em um piano erudito, aos 10 anos. Meu avô foi um importante cantor na era do rádio no Rio de Janeiro, e desde pequeno, convivi com serestas e shows, mas sempre violões e nunca bateria. O piano não durou muito tempo, acabei estudando por uns 2 anos, só voltei a música aos 17, em uma sala de aula da escola, onde tive uma ideia e mandei uma pergunta do nada aos amigos: vamos montar uma banda? Vou tocar bateria e vocês? Até hoje, não entendo de onde me surgiu a ideia, talvez seja realmente minha missão aqui na terra.

Meu primeiro professor foi um moleque da minha sala mesmo, que tinha bateria em casa e me passou os primeiros grooves, mas “professor de verdade” foi o Duda Neves. Ele me direcionou e me deu condições para tocar na minha banda de rock, Klandestinos. Com ela veio a minha primeira bateria, Taiko, presente de meu pai. Daí pra frente, foram anos de rock, até chegar a virar banda de baile, e mais uns 10 anos ralando, vivendo em um ônibus (metade carga e metade passageiro), viajando, fazendo rodeios, carnavais, festas, formaturas, etc.

Som Batera: Você é um baterista que tem uma musicalidade que nos surpreende. Na sua opinião, qual é o principal papel da bateria na música?

Julio Bittencourt: Obrigado pelo elogio, mas, descobrir o papel da bateria é uma estrada que tem que ser percorrida por todos que desejam viver dela. Este papel não tem um capítulo só, vai mudando com a maturidade musical. Passei por importantes fases como: manter o tempo na música, fazer o groove certo, tocar todos os arranjos iguais ao disco, e muitos outros, mas fui, com muita atenção, procurando meu caminho, e acredito que é exatamente nesse período que se diferenciam os bateristas.

Não é algo que se encontre do dia para a noite, mas se cada um for atento, vai descobrindo por qual estilo musical tem mais habilidades e com qual pode, realmente, colaborar, a ponto de não copiar ninguém e sim imprimir seu próprio estilo. Fiquem atentos, pois, temos que ter a cabeça muito aberta para conhecer e tocar de tudo. As vezes não encontramos no primeiro estilo musical que tocamos e gostamos, nunca desistam.

Eu descobri minha vocação ouvindo, anos depois, o Rubinho Barsot do Zimbo Trio, onde tive outra luz e sai à procura daquele caminho. Fui sendo honesto comigo mesmo e aceitando minhas condições. Eu queria tocar o groove do Dennis Chambers, as viradas do Dave Weckl, as frases da Vera Figueiredo, etc… mas nunca gostei de tocar em um volume alto, não me sentia bem mesmo. Quando achei o caminho das melodias dos bateristas de jazz e da bossa nova, foi como descobrir um instrumento novo. Segui estudando e acredito que ainda tem muito a ser percorrido, para poder me comunicar da maneira que desejo.

Continuo estudando todos os papéis da bateria que já trilhei e outros que vou descobrindo a cada dia.

Som Batera: Quais foram e são as suas influências?

Julio Bittencourt: Como falei no início, minhas influências foram mudando com o tempo e cada uma delas me trouxe um degrau a mais no desenvolvimento no instrumento. As primeiras foram: Barone, Charles Gavin, depois vieram Dennis Chambers, Carlos Bala, Dave weckl, seguidos por Rubinho Barsot, Milton Banana, Buddy Rich, Tony willians, Jack Dejonette, Bill stewart, Ari Hoenig, Airto Moreira, Brian Blade, Zé Nazário, Edsom Machado, Duduka da Fonseca, Jeff Haminton, Jeff “tain “Wats, os atuais Edu Ribeiro, Rafael Barata; tem muita gente boa. Mas sintetizando, hoje, alguns dos que mais ouço são: o Inigualável Elvin Jones, um grande batera moderno chamado Joey Baron, o francês Andre Ceccarelli e Daniel Humair.

Som Batera: Para quem não sabe, o grupo Julio Bittencourt Trio, participa do cenário da música instrumental brasileira desde 2001. Conte-nos, como surgiu o projeto?

Julio Bittencourt: O projeto surgiu de uma maneira bem simples, definimos uma data final para a banda de baile e começamos a gravar um CD de meu irmão, Luciano Bittencourt, que seria lançado como Luciano K, um projeto de pop romântico, com pitadas de rock. Gravamos, fomos as TVs fazer programas de auditório, etc… mas sentimos que, realmente, não era nosso caminho. Para não ficar parado, montei um grupo de estudo de jazz e música brasileira e fomos convidados pra fazer um show. Como não tinha nome, eu coloquei Julio Bittencourt Trio, para não confundir com o nome do meu irmão. Daí pra frente, a coisa pegou e foi se desenvolvendo.

Viajamos em 2002 para fazer shows e estudar nos EUA, isso contribuiu muito para nossa visão da música moderna. Na volta, gravamos um CD, Carnaval Moderno, mixando marchinhas de carnaval com jazz, sendo um dos primeiros ou o primeiro grupo a fazer neste formato de trio. Iniciamos a empreitada na região com projeto de jazz aberto, gratuitamente, as terças, e que fazemos até hoje, mas com apoio da TV Câmara, com transmissão ao vivo pela internet.

Em 2008, gravamos nosso CD, TRÊS, com repertório de samba e algumas composições clássicas que adaptamos, como exemplo: Jesus, Alegria dos Homens. Atualmente, estamos viajando para tocar em festivais e casas de show pelo Brasil com nosso projeto atual, CAMINHO NATURAL, um CD de composições do próprio Trio.

Som Batera: Além do Trio, você participa de mais algum projeto?

Julio Bittencourt: Tivemos uma decisão importante no início do Trio, onde decidimos dar toda prioridade ao grupo e fazemos o possível quando somos chamados para tocar com outros artistas, para manter o nome do Trio na publicidade, e isso formou um ótimo release, pois, temos em nossa história, participações como: Paulo Moura, Marvio Ceribelli, Dani Spilman, Alamo Leal (Blues Man), Ju Cassou, Mozart Mello, Leo Gandelman, as cantoras americanas Rodica Weitzman e Alma Thomas (The Voice) e o francês Bernard Fines (que está lançando no Brasil e na Europa um CD que conta com participações como: Zeca Baleiro, Gilson Peranzetta, Luis Melodia entre outros).

Som Batera: Conte-nos algum caso engraçado que tenha acontecido em alguma de suas apresentações.

Julio Bittencourt: Foram muitos mesmo, principalmente na época dos bailes, mas pra resumir um, foi o seguinte: bem no meio da apresentação, havia um momento de tocar pandeirola com os violões, fazendo aquele clima de todo mundo comigo, e, normalmente, o palco da bateria fica mais alto que o palco principal e logo atrás de mim, vem a parede do fundo do clube, mas neste dia não tinha parede, era uma cortina!!! E imaginem o que aconteceu? Fui para trás e encostei para descansar, justamente ali, o braço passou direto e acabei caindo de uma grande altura. Graças a Deus, não aconteceu nada muito grave, mas voltei com uma vergonha enorme, a banda parou e todos vieram me acudir.

Som Batera: Fale um pouco dos seus projetos futuros.

Julio Bittencourt: Estou lançando o “Deslimites”, que é um projeto inovador, onde faço duos de bateria com vários instrumentos. É muito interessante ouvir, por exemplo, a bateria e o violino, ou bateria e voz. Acredito muito na qualidade deste projeto. Com o Trio, estamos viajando na divulgação do CD “Caminho Natural”, e este ano iniciamos também a turnê oficial do “Muito Mêrci”, CD com o francês Bernard Fines, além de apresentações com a cantora Ju Cassou, do show Canções de Elis.

Em minha escola de música IMB, estamos com novas didáticas, criando um ambiente facilitador para o desenvolvimento integral do aluno, e isso já da bastante trabalho.

Som Batera: Sabemos que um músico de verdade ama o que faz. Para você, o que é música?

Julio Bittencourt: Para mim, música é algo muito maior que só executar um instrumento ou ler uma partitura, música é a energia que pode se transformar e fazer uma pessoa se sentir bem ou gerar uma grande dor de cabeça. Por isso, devemos nos preocupar com que “sentimento” tocamos nossos instrumentos e com certeza você saberá quando tiver o retorno das pessoas.

Som Batera: Fale um pouco de seus patrocinadores. Quem apoia os seus projetos?

Julio Bittencourt: Sou muito grato por ter como patrocinador, uma empresa igual a Sonotec e através deles a Gretsch. São extremamente profissionais e justos, nos dando condições de trabalhar com o melhor equipamento. Eu disse a eles e torno sempre a dizer, que minha voz como instrumentista é o som das baterias Gretsch. Não saí pedindo patrocínio em lugar nenhum, fui direto a eles, pois ser honesto neste negócio é de suma importância. Acredito mesmo em todos os equipamentos que represento. Além deles, trabalho também com Drum Pratic Pads, um exelente equipamento para o estudo, indico sem medo de errar.

Som Batera: Deixe uma mensagem para todos aqueles que desejam seguir a carreira de baterista, mesmo sendo ela às vezes muito difícil. Deixe uma mensagem a todos que acessam o portal Som Batera e que admiram o seu trabalho.

Julio Bittencourt: Agradeço ao portal Som Batera por esta oportunidade e deixo um recado que acho fundamental: tenham paixão, pois, só assim, se encontra o caminho. Qual caminho? Não importa o caminho, pois, a estrada que nos leva aos caminhos que importam. Atrás de cada baquetada tem que haver uma intensão e se ela for entendida, você fez seu trabalho de casa.

Paz, Amor e Jazz!!!
T JAZZ bateras.
Nos vemos na estrada.

CONTEÚDO VIP

COMPARTILHAR
Leonardo Telles
Proprietário do site Som Batera e baterista profissional, descobriu sua paixão pela música muito novo, aos 6 anos de idade. Hoje, toca com vários músicos e partilha conhecimentos por meio do Som Batera.

7 Comentários

  1. Com ótima herança musical do avô, ótimas influências dos grandes músicos,esforço ,estudo,paixão (visível) pelo que faz = Julio Bittencourt .Este trio do Julio ,com BjBentes( baixo espetacular), e Luciano Bittencourt- a guitarra que fala- ( irmão,em paixão, sangue e talento ,do JB ),é bárbaro . Que, então, o sucesso venha por acréscimo!!Fundamental ,mesmo é que já está inscrito ,com tds as letras ,no cenário musical. E pensar que td começou assim…”Meu primeiro professor foi um moleque da minha sala mesmo, que tinha bateria em casa e me passou os primeiros grooves…” que coisa mais linda…agarrar e dirigir seu pp querer !

  2. Parabéns Julio ,Luciano e BJ-pelo talento trabalho e dedicação a musica que com toda certeza do mundo proporciona a todos que ouvem um grande momento de alegria e entretenimento pois a musica encanta a alma e alegra os corações tristes ainda mais vinda de pessoas tão cheias de qualidades como vocês.Que Deus os abençoe ainda mais.
    Um grande abraço a todos
    Fafá Lima

  3. SOU FABRICANTE DOS PADS DE ESTUDO DRUMPADS.COM.BR OS QUAIS O JULIO É MEU ENDORSE.PRIMEIRAMENTE PARABENIZO O MÚSICO POR SUA DETERMINAÇAO,FÉ E FORÇA INCOMUNÁVEL EM SUA CARREIRA.É DIGNO DE EX.PARA TODOS QUE QUEIRAM SOBREVIVER DE MÚSICA DE QUALIDADE AQUI NO BRAZIL.
    TOCO O BUMBO JULIAO E NAO MESSA ESFORÇO,NÓS AQUI DA DRUMPADS,TEMOS MUITO ORGULHO DE VOCÊ.
    JULIOJAZZJULIO…!!!

  4. Parabéns, Júlio. Que você continue levando esse encantamento a muitos corações. Um grande abraço a vocês. Eli Ribeiro.

  5. PARABÉNS!!! A SERIEDADE, AMOR E DEDICAÇÃO COM QUE FAZ SUA MÚSICA, É UM EXEMPLO A SER SEGUIDO. E O MELHOR, VOCÊ, LUCIANO E BJ FAZEM A MÚSICA TOCAR NO CORAÇÃO DE UMA FORMA DIFERENTE,
    MUITO SUCESSO SEMPRE!!!!

DEIXE UMA RESPOSTA